quinta-feira, 2 de maio de 2019

Homoteose Zodiacal: Touro


Olá, pessoal!

Desculpem o atraso, mas finalmente saiu o post especial sobre a homoteose do signo de Touro, o segundo na ordem dos signos do Zodíaco (as datas de início e fim de cada signo são as do período 2019-2020, pois as datas podem variar levemente a cada ano). Um alerta: aqui não tratarei dos aspectos astrológicos dos signos; quem quiser saber como cada signo é no amor, no sexo, no beijo, etc, o que não faltam são milhares e milhares de sites (literalmente) sobre o assunto. Então eu só faria chover no molhado (além de que eu não sou astrólogo).

Touro
(20/04 a 21/05)

Touro é uma das constelações mais antigas, datando pelo menos do início da Idade do Bronze, quando ela marcava a posição do Sol durante o equinócio de primavera no hemisfério Norte (que hoje está em Áries). Sua importância para o calendário agrário influenciou inúmeras figuras de touros nas mitologias da Suméria, Acádia, Assíria, Babilônia, Egito, Grécia e Roma.

Estátua de Gilgamesh,
Universidade de Sydney,
Austrália
No babilônico 'Épico de Gilgamesh', a deusa Ishtar envia o Touro do Céu para matar Gilgamesh por rejeitar os avanços dela. Enkidu, que estudiosos da era moderna o têm interpretado como amante homossexual de Gilgamesh, arranca a parte traseira do touro e arremessa os quartos para o céu, onde se tornam as estrelas que conhecemos como Ursa Maior e Ursa Menor. Alguns identificam Gilgamesh como a constelação vizinha de Órion, enfrentando Touro como se estivesse em combate, enquanto outros o identificam com o Sol cuja subida no equinócio vence a constelação. No início da arte mesopotâmica, o Touro do Céu estava intimamente associado a Inana, a deusa suméria do amor sexual, da fertilidade e da guerra. Tanto Ishtar como Inana são identificadas na Grécia como Afrodite, cujo planeta associado, Vênus, é o regente do signo de Touro segundo a astrologia. Afrodite, como já vimos em alguns outros posts sobre a Deusa aqui mesmo no blog, tem entre seus atributos a proteção sobre o amor homossexual entre homens, de acordo com Platão.

'O rapto de Europa',
de Francisco Goya (1772)
Na mitologia grega, Touro foi identificado com Zeus, que assumiu a forma de um magnífico touro branco para raptar a princesa Europa da Fenícia. Nas ilustrações da mitologia grega, apenas a parte frontal desta constelação é representada; isso às vezes era explicado porque o Touro estava parcialmente submerso enquanto levava Europa pelo mar. Um segundo mito grego retrata Touro como Io, amante de Zeus. Para esconder sua amante de sua esposa Hera, Zeus mudou Io para a forma de uma novilha. O mitógrafo grego Acusilaus identifica Touro como aquele que formou o mito do Touro de Creta, um dos Doze Trabalhos de Héracles.

Infelizmente, assim como Áries, o mito da constelação de Touro não traz muitas informações em que podemos identificar aspectos homoteóticos, e mesmo a relação supostamente homoerótica entre os heróis babilônicos Gilgamesh e Enkidu só foi evidenciada nos tempos modernos, sem uma base muito sólida para isso. Assim, acabaremos encontrando esses aspectos homoteóticos em mitos relacionados ao da constelação de Touro, como aqueles sobre dois dos filhos nascidos de Zeus-Touro e Europa, Minos e Sarpédon, e também de Glauco, filho de Minos, e visões homoeróticas do combate entre Teseu e o Minotauro.

Minos era o filho mais velho de Zeus e Europa, irmão de Radamanto e Sarpédon, e foi o mais famoso rei de Creta, tendo vivido três gerações antes da Guerra de Troia. A cada nove anos, ele obrigava o Rei Egeu de Atenas a escolher sete rapazes e sete moças para serem enviados para a criação de Dédalo, o labirinto, para serem comidos pelo Minotauro. Após a sua morte, Minos tornou-se um juiz dos mortos no Submundo.

Ele exilou seus dois irmãos, rivais pelo trono de Creta. Radamanto, que era o legislador de Creta e muito popular por conta de suas leis severas, porém justas, teve que se refugiar na Beócia, onde se casou com Alcmena, viúva de Anfitrião e mãe de Héracles (Hércules); teria sido Radamanto quem ensinou Hércules a manejar arco e flechas. Após a sua morte, Radamanto também foi tornado um dos juízes do Submundo.
Afresco do salto sobre o touro em Cnossos, capital da antiga Creta
Quanto a Sarpédon, este e Minos lutaram pelo amor de um rapaz de nome Mileto (filho de Apolo e da ninfa cretense Areia) ou Atímnio (filho de Zeus e da Rainha Cassiopeia da Fenícia [não confundir com a Rainha Cassiopeia da Etiópia, mãe de Andrômeda], o que o faz meio-irmão de Minos e Sarpédon). Como o jovem preferiu Sarpédon, este foi expulso por Minos e reinou sobre a Lícia (sudoeste da atual Turquia). Mileto também fugiu, e fundou a cidade de Mileto na costa da Cária, país vizinho à Lícia, também no sudoeste da atual Turquia, pátria do famoso filósofo e matemático Tales de Mileto.

Minos teve vários filhos, todos eles com a sua esposa, a Rainha Pasífae, filha de Hélio, o Deus-Sol. Entre os mesmos havia o Príncipe Glauco, cujo mito relata a sua morte e a sua ressurreição.

Um dia, enquanto jogava bola ou perseguia um rato, Glauco caiu numa grande jarra de mel e morreu afogado. Incapazes de encontrar o filho, seus pais consultaram um oráculo, que lhes contou que "Uma maravilhosa criatura nasceu entre os seus: quem encontrar a verdadeira semelhança com essa criatura também encontrará o filho."

Poliidos e Glauco,
com as duas serpentes embaixo
(460-450 AEC)
O vidente Poliidos de Argos ou de Corinto observou a semelhança de um bezerro recém-nascido no rebanho de Minos, que mudava de cor (branco, vermelho e preto), com o amadurecimento do fruto da amoreira, e assim Minos o enviou para encontrar Glauco. Procurando pelo rapaz, Poliidos viu uma coruja expulsando abelhas de uma adega no palácio de Minos. Dentro da adega havia um barril de mel, com Glauco morto no interior. Minos exigiu que Glauco fosse trazido de volta à vida, embora Poliidos se opusesse. Minos então trancou Poliidos na adega com uma espada. Quando uma cobra apareceu, Poliidos a matou com a espada. Outra cobra veio e, depois de ver sua companheira morta, saiu e retornou trazendo uma erva que então trouxe a primeira cobra de volta à vida. Seguindo esse exemplo, Poliidos usou a mesma erva para ressuscitar Glauco, de quem, dizem, se tornou amante.

Minos se recusou a deixar Poliidos partir de Creta até que ele ensinasse a Glauco a arte da adivinhação. Poliidos atendeu a ordem, mas, no último momento antes de partir, ele pediu ao príncipe que cuspisse em sua boca. Glauco cuspiu e esqueceu tudo o que aprendera. A história de Poliidos e Glauco foi tema de uma peça perdida atribuída a Eurípides, chamada 'Belerofonte' (onde Poliidos ensinou o herói Belerofonte a como domar o cavalo alado Pégaso para poder enfrentar a Quimera), e de outra de Sófocles, chamada 'Os Adivinhos'. Glauco mais tarde liderou um exército que atacou a Itália, apresentando-lhes a cinta militar e o escudo. Esta foi a fonte de seu nome italiano, Labicus, que significa "cingido" ("vestido com um cinto"). Glauco teve uma filha chamada Deífobe, que era uma sacerdotisa de Febo Apolo e Diana Trívia que aparece na 'Eneida' no Livro 6.

Antoine-Louis Barye (1843)
Antonio Canova (1781)
E, é claro, não poderíamos fechar este post sobre a homoteose do mito de Touro sem mencionar a batalha entre Teseu e o Minotauro (Minos-Tauros, Minos-Touro, o Touro de Minos), cujo combate muitas vezes serviu de inspiração para obras com fortíssimas conotações homoeróticas, como as dos escultores Antonio Canova (1781), Étienne Jules Ramey (1826) e Antoine-Louis Barye (1843), como vocês podem ver nas imagens que ilustram este artigo.
Étienne Jules Ramey (1826)
É isso aí, pessoal! Espero vocês no próximo mês, com a matéria especial sobre a homoteose do signo de Gêmeos!

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