terça-feira, 30 de julho de 2019

Homoteose Zodiacal: Leão

Leão na Uranografia de Johannes Hevelius (1690)
Olá, pessoal!

Chegou a hora do post especial sobre a homoteose do signo de Leão, o quinto dos signos do Zodíaco (as datas de início e fim de cada signo são as do período 2019-2020, pois as datas podem variar levemente a cada ano). Um alerta: aqui não tratarei dos aspectos astrológicos dos signos; quem quiser saber como cada signo é no amor, no sexo, no beijo, etc, o que não faltam são milhares e milhares de sites (literalmente) sobre o assunto. Então eu só faria chover no molhado (além de que eu não sou astrólogo).

Leão
(23/07 a 23/08)

Leo é o nome latino da constelação de Leão. Para os antigos gregos ela representava o Leão de Nemeia, morto pelo mítico herói Héracles (Hércules) como o primeiro dos seus Doze Trabalhos. Uma das 48 constelações descritas pelo astrônomo Ptolomeu do século II, Leão permanece como uma das 88 constelações modernas, e uma das mais facilmente reconhecíveis devido às suas muitas estrelas brilhantes e a um distinto formato que verdadeiramente lembra o de um leão.

Leão —  moeda de prata comemorativa
da série 'Signos do Zodíaco' (Rússia, 2002)
História & Mitologia
Leão é uma das constelações mais antigas reconhecidas, com evidência arqueológica de que os mesopotâmios tinham uma constelação similar em 4.000 AEC. Os persas a chamavam Ser ou Shir; os turcos, Artan; os sírios, Aryo; os judeus, Arye; os indianos, Simha — todos significando "Leão".

Hércules e o Leão de Nemeia
(ilustração de Chance McConnell)
Alguns mitologistas acreditam que, na Suméria, Leão representava o monstro Humbaba, que tem a face de um leão e foi morto por Gilgamesh. (para saber sobre o homoerotismo no mito de Gilgamesh na astronomia, veja o artigo sobre a homoteose zodiacal de Touro)

Na astronomia babilônica, a constelação era chamada UR.GU.LA, o "Grande Leão"; a estrela Regulus era conhecida como "a estrela que fica no peito do Leão", representando o Coração do Leão. Regulus, cuja palavra significa "Príncipe" ou "Pequeno Rei", tinha também distintivamente associações régias, pois era conhecida como a Estrela Rei.

Héracles e o Leão de Nemeia
(pinturas em cerâmicas gregas)
Héracles Lansdowne
(ano 125)
Na mitologia grega, como já dito, Leão era identificado como o Leão de Nemeia, que foi morto por Hércules nos seus Doze Trabalhos. O Leão de Nemeia era invulnerável a qualquer arma; assim, para vencê-lo, Hércules teve que usar as mãos nuas e sua incrível força física, estrangulando o leão. Zeus, pai de Hércules, comemorou o feito colocando o leão no céu. Uma curiosidade que muita gente deixa passar: durante o combate corpo a corpo, o leão arrancou um dos dedos do herói com uma mordida. E, para esfolar o leão e usar a sua pele como couraça impenetrável, Hércules só conseguiu cortá-la usando as próprias garras do animal, por sugestão de Atena.

Os romanos a chamavam Herculeus Leo (Leão de Hércules);  Violentus Leo (Leão Violento); Bacchi Sidus (Estrela de Baco, já que Baco/Dioniso era sempre identificado com esse animal); e Jovis et Junonis Sidus (Estrela de Jove/Júpiter e Juno).

Banquete de Mitra e o Deus Sol
(ano de 130)

Ideal de Masculinidade
Hércules,
de Silvio Canevari (1931).
Stadio dei Marmi, Roma
Héracles ou Hércules, em cuja homenagem foi criada a constelação zodiacal de Leão, é o maior dos heróis da mitologia grega, o modelo ideal de masculinidade, ancestral dos clãs reais que afirmavam ser Heráclidas ("descendentes de Héracles") e o campeão da ordem olímpica contra os monstros ctônicos. Entre os seus títulos e atributos estão o de Guardião do Olimpo e Deus da força, dos heróis, dos esportes, dos atletas, da saúde, da agricultura, da fertilidade, do comércio, dos oráculos e divino protetor da humanidade, com especial proteção sobre o gênero masculino. Vivendo entre os Deuses no Monte Olimpo após a sua apoteose, os seus símbolos são a maça (clava), a pele do Leão de Nemeia e o arco e flechas.

Hércules Farnese
(ano de 216; o original
é do séc. IV AEC)
Hércules nasceu em Tebas, a principal cidade-estado da Beócia, região famosa por sua prática da pederastia, que consistia em relacionamentos amorosos socialmente reconhecidos entre homens, usualmente um adulto e um adolescente, uma tradição consagrada no próprio mito fundador da cidade. Muitos personagens da região, míticos e históricos, são homoafetivos, como o Rei Laio, o caçador Narciso, o adivinho Tirésias, os heróis Hércules e Iolaus, e o renomado Batalhão Sagrado de Tebas. Além de tudo isso, a Beócia tinha Eros, em seu aspecto de deus primordial, como a sua divindade de maior adoração; em muitos aspectos, como se sabe, Eros tem especial poder sobre o amor homossexual entre homens e é um dos patronos da pederastia em toda a Grécia, ao lado de Hermes e, como não poderia deixar de ser, de Hércules.

Hércules e o Leão de Nemeia (arte de Miguel Coimbra)

Hércules Farnese
(visão traseira)
Como símbolo de masculinidade e do ideal guerreiro, Hércules teve muitos amantes masculinos. Plutarco, em seu 'Eroticos', sustenta que os homens que Hércules amou eram incontáveis. Em um momento mais oportuno farei artigos próprios sobre cada um desses amores masculinos do maior herói de todos os tempos, assim como um artigo especial sobre a pederastia na Grécia; são desejos muito antigos meus.

Sol, o regente de Leão
O Sol, ou aspectos dele, é representado por divindades masculinas e femininas que evidenciam o seu poder e a sua força. Deidades solares e o culto ao Sol podem ser encontrados por toda a história humana em várias formas.

Leão e Sol
(símbolo do Irã, antiga Pérsia)
Sekhmet, deusa leoa da
guerra com a coroa do disco solar
e o enorme falo ereto
(Templo de Karnak, Egito)
No Egito, Atum é o deus criador de caráter solar que se masturbou e literalmente ejaculou o Universo. Segundo a religião egípcia, o atual regente divino do cosmos é Hórus, jovem deus-sol que, como já vimos aqui mesmo no blog, é um importantíssimo deus homoteótico, bissexual e amante do seu tio e rival Set. Poderosas divindades solares femininas também povoam o Egito, como Sekhmet, a deusa leoa da guerra; Bastet, a deusa gata da fertilidade; e Hathor, a deusa vaca do amor — todas filhas de Rá, o principal deus-sol da mitologia egípcia. Falando em Rá, também já foi mostrado aqui no blog como o Faraó Neferkare e o General Sasenet mantinham um romance secreto e eram referenciados respectivamente como os deuses Rá e Osíris.

A Queda de Faetonte,
de Gustave Moreau (1878).
Note a constelação de
Leão no alto
Na Grécia, dois dos mais importantes deuses são associados ao sol: Hélio e Apolo, ambos bissexuais, cujas irmãs gêmeas, Selene e Ártemis, são associadas à Lua. Faetonte, filho de Hélio e que provocou destruição por onde passou com a carruagem solar mal conduzida por ele, era um jovem homossexual amado pelo Rei Cicno, que lamentou a sua morte. No mito da criação da humanidade descrito por Platão e por Aristófanes, os homens homossexuais, que originalmente eram as criaturas duplas homem-homem, descendem do Sol, enquanto as mulher-mulher (as mulheres homossexuais) descendem da Terra e as homem-mulher (os andróginos, depois separados em homens e mulheres heterossexuais) descendem da Lua.

Elagábalo, Sumo Sacerdote do Sol
(Simeon Solomon, 1866)
Durante o Império Romano, o festival que celebrava o aniversário de (re)nascimento ('Dies Natalis' ou "Dia Natal") do Sol Invicto marcava o solstício de inverno, que no calendário juliano caía no dia 25 de dezembro. Com a dominação cristã no mundo romano, a data foi suplantada pelo aniversário de Cristo, também conhecido como "Natal" assim como o era para o Sol Invicto. Elagábalo, o jovial imperador homossexual e transgênero de origem síria, durante o seu governo negligenciou os deuses romanos e promoveu o deus-sol sírio também chamado Elagábalo (Elagabalus, Aelagabalus, Heliogabalus ou Ilāh hag-Gabal, "o Deus da Montanha") como a divindade mais poderosa de Roma.

Amaterasu emergindo da caverna,
de Shunsai Toshimasa (séc. XIX)
No Japão, a deidade solar Amaterasu, que é uma das divindades mais importantes do xintoísmo, tem um nome agênero (quer dizer que o nome 'Amaterasu' não é feminino nem masculino) e debate-se que a deusa solar ancestral dos imperadores japoneses era originalmente um deus masculino, e conta-se que, sob a forma de uma serpente, unia-se todas as noites com a alta sacerdotisa do seu culto. Em outro momento aprofundarei essa questão num artigo próprio sobre Amaterasu.

Coaraci, de Bianca Duarte (2016)
No Brasil, o nome do deus-sol tupi-guarani, Kûarasy (Kuarahy, Coaraci ou Guaraci), tem uma origem feminina, significando "mãe deste dia", ou, por associação, "origem deste dia".

Bom, aí está, pessoal. Espero que tenham gostado desse artigo especial. Adorei me aprofundar nos mitos homoteóticos do Sol, poderoso Deus que está sempre em meus pensamentos e agradecimentos, e nunca me canso de trazer mais materiais sobre Hércules, que eu amo de paixão e tenho como meu modelo de homem, de guerreiro e de herói.

Hércules e o Leão de Nemeia
(teto da Villa Farnesina, Roma)
Até o próximo artigo desta série, com a homoteose do signo de Virgem!

2 comentários:

Luã disse...

Amei o seu blog, e saber que existe todo um lado mitológico e até sagrado sobre um aspecto humano que por tanto tempo foi tratado de maneira erronea como abominação e pecado. É um lufada de ar fresco e uma nova e bem vinda visão sobre a homosexualidade

Fábio Máximo disse...

Oi, Luã! É justamente por isso tudo o que você falou que eu criei este blog. Precisamos combater a mentirosa ideia de que homo-bi-trans-inter-assexualidade é incompatível com religião e espiritualidade. Praticamente todas as sociedades do passado e do presente (mesmo que a maior parte do mundo hoje em dia seja abraâmica) nos trazem uma visão bem diferente de nossas sexualidades e identidades, algumas vezes até as sacralizando e divinizando.
Precisamos resgatar isso, pois temos o mesmo direito ao sagrado que qualquer outra pessoa, e de não sermos tratados como pecadores e abominações que merecem ser mandados para o inferno.
Muito obrigado pela sua visita e seu comentário. Sinta-se sempre à vontade para retornar e comentar novamente.
Um grande abraço.

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