sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Homossexualidade no Japão: Budismo e Xintoísmo

Arte de Hideki Koh

O Japão é um país muito antigo e, como para tudo mais, possui lendas e mitos de deuses e heróis e todo um sistema ritual que sustentava e promovia largamente o amor e o sexo entre homens ao longo de sua história milenar.

Registros de sexo entre homens no Japão datam de tempos antigos. Práticas históricas identificadas pelos estudiosos como homossexuais incluem shudō (衆道), wakashudō (若衆道) e nanshoku (男色).

O termo nanshoku (男色), que também pode ser lido danshoku, literalmente significa "cores masculinas". O ideograma (shoku, "cor") também significa "prazer sexual" tanto na China como no Japão. Esse termo era largamente usado para se referir a algum tipo de sexo entre homens na era pré-moderna do Japão. O termo shudō (衆道), abreviado de wakashudō (若衆道, "o caminho dos rapazes adolescentes") também é usado, especialmente em obras mais antigas.

Durante o Período Meiji (1868 a 1912), nanshoku começou a ser desencorajado devido à ascensão da sexologia no Japão e ao processo de ocidentalização.

Arte de Hideki Koh
Termos modernos para homossexuais incluem dōseiaisha (同性愛者, literalmente "pessoa amada do mesmo sexo"), okama (お釜, "pote", gíria [geralmente ofensiva] para "homens gays"), gei (ゲイ, "gay"), homo (ホモ) ou homosekusharu (ホモセクシャル, "homossexual"), onabe (お鍋, "panela", gíria para "lésbica"), bian (ビアン)/rezu (レズ) e rezubian (レズビアン, "lesbian/lésbica").

Japão Pré-Meiji

Uma variedade de referências literárias de amor homossexual existe em fontes antigas, mas muitas delas são tão sutis que não são confiáveis; outra consideração é que declarações de afeto para amigos do mesmo sexo eram comuns. Não obstante, referências existem, e elas se tornam mais numerosas no Período Heian, mais ou menos no século 11. Por exemplo, em O Conto de Genji (Genji Monogatari), escrito no começo do século 11, homens frequentemente se comovem com a beleza de jovens rapazes. Em uma cena o herói protagonista é rejeitado por uma dama e prefere dormir com o irmão mais novo dela: "Genji puxou o rapaz para o lado dele... Genji, por sua vez, ou assim é informado, achou o rapaz mais atraente do que sua fria irmã."

O Conto de Genji é um romance, mas há diversos diários da Era Heian que contêm referências a atos homossexuais. Alguns contêm referências a imperadores envolvidos em relacionamentos homossexuais com "belos rapazes retidos para fins sexuais".

"Amor" homossexual nos monastérios

Relacionamentos nanshoku dentro de monastérios eram tipicamente pederásticos: um relacionamento estruturado por idade onde o parceiro mais jovem não é considerado um adulto. O parceiro mais velho, ou nenja (念者, "amante" ou "admirador"), poderia ser um monge, sacerdote ou abade, enquanto o mais novo era considerado um acólito (稚児 chigo, “assistente clerical”), que poderia ser um rapaz adolescente ou mesmo pré-pubescente; o relacionamento se dissolvia assim que o rapaz alcançasse a fase adulta (ou deixasse o monastério). Ambos os lados eram encorajados a tratar o relacionamento de modo sério e conduzir o caso íntimo com honra, e ao nenja poderia ser requerido escrever um voto formal de fidelidade. Fora dos monastérios, considerava-se que monges tinham uma particular predileção por prostitutos masculinos, o que era assunto de muito humor obsceno.

Deus Hachiman
Não há evidência até então de oposição religiosa à homossexualidade dentro do Japão em tradições não-budistas. Comentaristas do Período Tokugawa (ou Período Edo, 1603 a 1868) sentiam-se livres para representar kamis (espíritos ou divindades adorados na religião xintoísta) envolvidos em sexo anal uns com os outros. Durante esse período, alguns dos deuses xintoístas, especialmente Hachiman (deus da guerra e protetor divino do Japão, adorado pela maioria dos samurais), Myoshin, Shinmei e Tenjin (deus do céu, da erudição e da aprendizagem), "vieram a ser vistos como divindades guardiãs do nanshoku (amor entre homens)". Ihara Saikaku, escritor desse período, brincava dizendo que, já que não há mulheres nas três primeiras gerações da genealogia dos deuses fundadores no Nihon Shoki (As Crônicas do Japão, o segundo livro mais antigo da história japonesa, atrás apenas do Kojiki), os deuses devem ter usufruído de relacionamentos homossexuais — o que Saikaku argumentava ser a verdadeira origem do nanshoku.

No budismo japonês

Variados escritores têm notado a forte tradição histórica de homo e bissexualidade abertas entre instituições budistas masculinas no Japão. Quando o sacerdote Genshin da escola budista Tendai criticou duramente a homossexualidade como imoral, outros confundiram sua crítica com o fato de o acólito não ser propriedade de ninguém. Chigo Monogatari (Contos de Acólitos) sobre amor entre monges e seus chigos eram populares, e tais relacionamentos parecem ter sido comuns, junto com sexo com mulheres. No século 15, o monge zen dissidente Ikkyu Sojun escreveu "siga a regra do celibato e você não é mais que um asno". Depois, "exausto dos prazeres homossexuais", ele tomou uma esposa.

Velho Budista, de Utagawa Kuniyoshi
(séc. 19)
Viajantes cristãos ocidentais no Japão do século 16 têm notado (com desgosto) a prevalência e aceitação das formas de homossexualidade entre budistas japoneses — o padre jesuíta Francis Cabral escreveu em 1596 que "abominações da carne" e "hábitos viciosos" eram "considerados no Japão como bastante honrosos; homens dignos confiam seus filhos homens aos bonzos (monges budistas) para serem instruídos em tais coisas, e ao mesmo tempo servirem à luxúria destes".

Um erudito budista japonês do século 17, Kitamura Kigin, escreveu que Buda advogava a homossexualidade sobre a heterossexualidade para os sacerdotes:

Tem sido a natureza dos corações dos homens ter prazer com uma bela mulher desde a era dos deuses machos e fêmeas, mas inebriar-se pelo botão em flor de um belo rapaz... pareceria ser errado e incomum. Contudo, o Buda pregou que o Monte Imose era um lugar para ser evitado e os sacerdotes da lei entravam nesse caminho como uma saída para seus sentimentos, já que seus corações não eram, no final das contas, feitos nem de pedra e nem de madeira. Como a água que jorra do pico do Tsukubane para formar as profundas lagoas do Rio Minano, este amor superou em profundidade o amor entre mulheres e homens nestes últimos dias. Isso atormenta o coração não só do cortesão e do aristocrata, mas também dos bravos guerreiros. Mesmo os montanheses que cortam a madeira para queimar aprenderam a ter prazer na sombra dos moços.
— Azaleias Selvagens (1676)

Uma popular lenda japonesa posterior atribuía a introdução da homossexualidade monástica no Japão a Kukai, fundador da escola budista Shingon, embora estudiosos atualmente recusem a veracidade dessa afirmação, pontuando sua estrita aderência ao Vinaya (o quadro regulamentar para a sangha, ou comunidade monástica budista, baseada nos textos canônicos chamados Vinaya Pitaka). Entretanto, a lenda servia para "ratificar relações homoeróticas entre homens e garotos no Japão do século 17".

Fontes:

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