sexta-feira, 29 de junho de 2018

Aquiles & Pátroclo

Aquiles enfaixando o braço de Pátroclo
(pintura em vaso de cerâmica, 530 AEC)
O relacionamento entre Aquiles e Pátroclo é um elemento chave das histórias associadas com a Guerra de Troia. Sua exata natureza tem sido um assunto de debate tanto no período clássico como nos tempos modernos. Na Ilíada, Homero descreve um profundo e significativo relacionamento entre os dois, onde Aquiles é gentil em relação a Pátroclo, mas insensível e arrogante com os outros. Homero nunca expressa explicitamente os dois como amantes, mas eles são descritos como tal nos períodos arcaico e clássico da literatura grega, particularmente nas obras de Ésquilo, Ésquines e Platão.

Na Ilíada

Aquiles e Pátroclo são camaradas íntimos na luta contra os troianos.

Devido a sua raiva ao ser desonrado por Agamenon, Aquiles escolhe não participar da batalha. Quando a maré da guerra se volta contra os aqueus (os gregos, como povo, ainda não existiam), Pátroclo convence Aquiles a deixá-lo liderar o exército mirmidão na batalha vestindo a armadura de Aquiles. Pátroclo tem sucesso em rechaçar as forças troianas, mas é morto na batalha por Heitor.

Notícias da morte de Pátroclo chegam a Aquiles através de Antíloco, o que o lança em profundo pesar. O outrora firme e inquebrável Aquiles agoniza, tocando o corpo de Pátroclo, sujando-se com cinzas e jejuando. Ele lamenta a morte de Pátroclo usando uma linguagem muito similar à usada mais tarde por Andrômaca pela morte do marido Heitor.

A fúria que se segue à morte de Pátroclo é a motivação primordial para Aquiles retornar ao campo de batalha. Ele retorna à batalha com o único objetivo de vingar a morte de Pátroclo matando Heitor, a despeito de uma advertência que ao fazer isso custaria a sua vida. Após derrotar Heitor, Aquiles arrasta seu corpo pelos calcanhares amarrados à sua carruagem.

Aquiles, frenético pela perda de Pátroclo,
rejeita o consolo de sua mãe Tétis,
de George Dawe, 1803
O laço interpessoal mais forte de Aquiles é com Pátroclo, a quem ama muito. Como Gregory Nagy (professor americano de Clássicos na Universidade de Harvard, especializado em Homero e em poesia grega arcaica) pontua, "Para Aquiles... em sua própria escala ascendente de afeição como dramatizado por toda a composição da Ilíada, o lugar mais elevado deve pertencer a Pátroclo... Na verdade, Pátroclo é para Aquiles o πολὺ φίλτατος ... ἑταῖρος (polý fíltatos ... etaíros) — o 'hetaîros (companheiro) que é de longe o mais phílos (querido)."

Hetaîros significa companheiro ou camarada; em Homero, é comumente usado entre soldados sob o mesmo comandante. Enquanto sua forma feminina (hetaîra) seria usada para cortesãs, um hetaîros era ainda uma forma de soldado nas épocas helenística e bizantina. Em textos antigos, philos denotava um tipo geral de amor, usado para amor entre familiares, entre amigos, um desejo ou satisfação numa atividade, bem como entre amantes.

Aquiles é o mais dominante, e entre os guerreiros na Guerra de Troia ele tem a maior fama. Pátroclo realiza deveres como cozinhar, alimentar e escovar os cavalos, ainda que seja mais velho que Aquiles. Os dois personagens também dormem com mulheres.

A ligação de Aquiles a Pátroclo é um laço masculino arquetípico que ocorre em toda a cultura grega: Alexandre o Grande e Heféstion, que faziam referências simbólicas publicamente a Aquiles e Pátroclo, Damão e Pítias, Orestes e Pílades, Harmódio e Aristógito são pares de camaradas que de bom grado enfrentaram o perigo e a morte por e ao lado um do outro.

No Oxford Classical Dictionary (Dicionário Clássico Oxford), David M. Halperin (teórico americano nos campos de estudos de gênero, teoria queer, teoria crítica, cultura material e cultura visual) escreve: "Homero, para ser honesto, não retrata Aquiles e Pátroclo como amantes (embora alguns atenienses clássicos pensassem que ele implicou isso bastante, como Ésquilo, Platão e Ésquines), mas ele também fez pouco para descartar tal interpretação."

Visões clássicas na Antiguidade

Nos séculos 5 e 4 AEC, o relacionamento entre Aquiles e Pátroclo era retratado como um romance homossexual nas obras de Ésquilo, Platão e Ésquines.

Em Atenas, o relacionamento era frequentemente visto como romântico e pederástico, embora esses papeis fossem anacronísticos para a Ilíada (que data do século 8 AEC). O costume grego da pederastia entre membros do mesmo sexo, tipicamente homens, era um relacionamento político, intelectual e às vezes sexual. Sua estrutura ideal consistia de um erastes (amante, protetor) mais velho e um eromenos (amado) mais jovem. A diferença de idade entre os parceiros e seus respectivos papeis (fosse ativo ou passivo [e não está-se falando aqui de sexo]) era considerada uma característica chave. Autores que assumiam uma relação pederástica entre Aquiles e Pátroclo, como Platão e Ésquilo, encaravam então o problema de decidir quem devia ser o mais velho e interpretar o papel do erastes.

Aquiles chora sobre o corpo de Pátroclo.
Gravura em cobre (1795) de Tommaso Piroli
baseado num desenho (1793) de John Flaxman
Ésquilo, em sua tragédia perdida 'Os Mirmidões' (século 5 AEC), designou a Aquiles o papel de erastes ou protetor (já que ele tinha vingado a morte do seu amor, embora os deuses tivessem lhe dito que isso custaria sua própria vida) e a Pátroclo o papel de eromenos. Aquiles lamenta publicamente a morte de Pátroclo, dirigindo-se ao cadáver e criticando-o por deixar-se ter sido morto. Em um fragmento sobrevivente da peça, Aquiles fala da "reverente companhia" das coxas de Pátroclo e como Pátroclo era "ingrato por tantos beijos".

A comparação de Píndaro do boxeador adolescente Hagesídamo e seu treinador Ilas com Pátroclo e Aquiles em 'Olimpiano', bem como a comparação de Hagesídamo com o amante de Zeus, Ganimedes, na mesma obra, sugere que o aluno e o treinador tinham um relacionamento romântico, especialmente após a descrição de Ésquilo de Aquiles e Pátroclo como amantes em sua peça 'Os Mirmidões'.

No 'Simpósio' de Platão, escrito por volta de 385 AEC, o orador Fedro evoca Aquiles e Pátroclo como um exemplo de amantes divinamente aprovados. Fedro argumenta que Ésquilo errou em determinar Aquiles como o erastes porque Aquiles era mais bonito e mais jovem que Pátroclo (características do eromenos), porém também mais nobre e habilidoso na batalha (características do erastes). Em vez disso, Fedro sugere que Aquiles é o eromenos cuja reverência por seu erastes, Pátroclo, era tão grante que ele se dispôs a morrer para vingá-lo.

Contemporâneo de Platão, Xenofonte, em sua obra também intitulada 'Simpósio', mostra Sócrates argumentando que Aquiles e Pátroclo eram meramente companheiros castos e devotados. Xenofonte cita outros exemplos de companheiros lendários, como Orestes e Pílades, que eram renomados por suas realizações em conjunto e não por qualquer relacionamento erótico. Notavelmente, no 'Simpósio' de Xenofonte o anfitrião Kallias e o jovem vencedor de pancrácio Autólico são chamados de erastes e eromenos.

Evidência adicional desse debate é encontrada num discurso de um político ateniense, Ésquines, em seu julgamento em 345 AEC. Ésquines, em lugar de enfatizar a importância da pederastia para os gregos, argumenta que, embora Homero não ateste isso explicitamente, o povo educado deveria ser capaz de ler nas entrelinhas: "Embora (Homero) fale em muitas passagens de Pátroclo e Aquiles, ele esconde seu amor e evita dar um nome a seu relacionamento, pensando que a grandeza excedente da afeição deles manifesta-se a tal de seus ouvintes como são homens educados". A maioria dos autores antigos (entre eles Ésquilo, Plutarco, Teócrito, Marcial e Luciano) seguiram o pensamento estabelecido por Ésquines.

Aquiles sobre o corpo de Pátroclo
com Tétis ao seu lado
De acordo com William A. Percy III (professor, historiador, enciclopedista e ativista gay americano), há alguns estudiosos, como o francês Bernard Sergent (historiador antigo e mitologista comparativo), que acreditam que na cultura jônica de Homero existia uma homossexualidade que não tinha assumido a forma que mais tarde teria na pederastia. Contudo, Sergent e outros têm argumentado que já tinha, embora não fosse refletida em Homero. Sergent assegura que relações ritualizadas homem-garoto eram largamente difundidas pela Europa desde os tempos pré-históricos.

Tentativas de editar o texto de Homero foram realizadas por Aristarco de Samotrácia em Alexandria por volta de 200 AEC. Aristarco acreditava que Homero não pretendia que os dois fossem amantes. Entretanto, ele concordava que a passagem "nós-dois sozinhos" implicava uma relação amorosa e argumentava que era uma interpolação posterior.

Quando Alexandre o Grande e seu amigo íntimo Heféstion passaram pela cidade de Troia em 334 AEC em sua campanha pela Ásia, Alexandre honrou o túmulo sagrado de Aquiles e Pátroclo diante de todo o exército, e isso foi tido como uma clara declaração da própria amizade dos dois macedônios. O túmulo comum e a ação de Alexandre demonstra o significado percebido da relação Aquiles-Pátroclo naquela época.

Interpretações pós-clássicas e modernas

Comentadores desde o período clássico têm interpretado o relacionamento pelas lentes de suas próprias culturas. Via de regra, a tradição pós-clássica mostra Aquiles como heterossexual e tendo uma amizade exemplarmente assexual com Pátroclo. Autores cristãos medievais deliberadamente suprimiram as nuances homoeróticas presentes.

David Halperin compara Aquiles e Pátroclo às tradições de Jônatas e Davi e Gilgamesh e Enkidu, que eram aproximadamente contemporâneas à composição da Ilíada. Ele argumenta que, enquanto um leitor moderno é inclinado a interpretar o retrato dessas intensas amizades guerreiras masculinas como fundamentalmente homoeróticas, é importante considerar os temas maiores dessas relações:

A temática insistência na mutualidade e a fusão de identidades individuais, embora possa invocar nas mentes de modernos leitores as fórmulas do amor romântico heterossexual [...] na verdade situa confessas de amor recíproco entre homens amigos em uma tradição honorável e até glamorosa de camaradagem heróica: precisamente ao banir qualquer indício de subordinação da parte de um amigo ao outro, e assim qualquer sugestão de hierarquia, a ênfase na fusão de duas almas em uma na verdade distancia tal amor de uma paixão erótica.

'Pátroclo', de Jacques-Louis David (1780)
De acordo com Halperin, essas relações extra-institucionais eram necessariamente retratadas usando a linguagem de relações de amor institucionalizadas, como as de pais e filhos e marido e mulher. Isso pode explicar as conotações no Livro 19 da Ilíada onde Aquiles pranteia Pátroclo numa maneira similar usada previamente por Briseis.

Jonathan Shay (médico e psiquiatra clínico americano), cujo livro 'Achilles in Vietnam' ("Aquiles no Vietnã" numa tradução livre) propõe leituras da Ilíada que têm sido de ajuda e terapeuticamente úteis para a cura de traumas mentais de veteranos do Vietnã, pontua que a relação familiar deles na Ilíada não deve ser esquecida: Pátroclo e Aquiles são primos e irmãos de criação; simbolicamente, companheiros de batalha são "como irmãos", tornando o modelo Aquiles/Pátroclo útil ao se pensar sobre a intensidade dos sentimentos de perda dos veteranos do Vietnã quando seus companheiros tombaram ao lado deles. Shay coloca uma forte ênfase nas relações que os soldados que experienciam o combate juntos forjam, e pontua que esse tipo de perda tem na verdade frequentemente levado a um estado frenético de soldados atordoados com tristeza e raiva, de um jeito similiar à fúria de Aquiles na Ilíada. Shay pontua que um tópico frequente no luto de veteranos por um companheiro é a gentileza ou inocência desse companheiro; similarmente, enquanto um guerreiro de grande nota, Pátroclo é referido na Ilíada por outros soldados e pela cativa Briseis como um homem gentil e bom.

Tradição clássica

A peça 'Troilo e Créssida' de William Shakespeare descreve Aquiles e Pátroclo como amantes. A decisão de Aquiles de passar seus dias em sua tenda com Pátroclo é vista por Ulisses (Odisseu) e muitos outros gregos como a razão chefe da aflição acerca de Troia.

Aquiles sobre o corpo de Pátroclo,
de Nikolai Ge (1855)
Os romances de Mary Renault contêm referências simbólicas frequentes a Aquiles e Pátroclo; o par representa um modelo de amor homossexual não afeminado que era o ideal para ela.

Uma versão futurística de Pátroclo aparece na estória de ficção científica de 1997 'The Masque of Agamemnon' ("A Máscara de Agamenon", numa tradução livre) de Sean Williams e Simon Brown.

O romance em verso 'Achilles' ("Aquiles", 2001) de Elizabeth Cook não é sexualmente explícito, mas um relacionamento romântico pode ser inferido. Ela escreve sobre Aquiles: "Ele também conhece o corpo de seu primo Pátroclo". No início do romance, quando Odisseu visita Aquiles no mundo inferior, "Ele se destaca com Pátroclo, seu amado por toda a eternidade, e Pátroclo — que ama Aquiles, mas não tanto quanto ele é amado — espera que Aquiles se mova", uma alusão ao Livro 9 da Ilíada, onde a embaixada dos líderes gregos encontra Aquiles tocando a lira e cantando, enquanto Pátroclo espera que seu amigo termine sua canção. A relação é intensamente íntima, e certamente excede os laços comuns da amizade.

Brad Pitt (Aquiles) e Garrett Hedlund (Pátroclo)
no filme 'Troia'
O filme 'Troy' ("Troia", 2004) apresenta Pátroclo como um parente mais jovem de Aquiles, sem quaisquer aspectos românticos ou sexuais. (Na Ilíada, é explicitamente atestado que Pátroclo era o mais velho e mais responsável dos dois.)

O musical 'Spring Awakening' ("Despertar da Primavera", numa tradução livre) inclui uma referência improvisada onde um garoto, Hanschen, suplica a outro, Ernst, a "fazer um pouco Aquiles e Pátroclo". Os dois personagens são mais tarde mostrados envolvidos em um relacionamento homossexual.

No romance 'Cassandra' de Christa Wolf, Aquiles e Pátroclo compartilham um tipo de ligação íntima de "irmãos na guerra", mas são também mostrados envolvidos num sexo grupal, cada um com uma mulher e possivelmente um com o outro.

O romance de Byrne Fone 'Achilles: A Love Story' ("Aquiles: Uma História de Amor", numa tradução livre), de 2008, retrata Aquiles e Pátroclo como amantes.

Aquiles toca a lira para Pátroclo, arte de chazstity
O romance de David Malouf 'Ransom' ("Resgate", numa tradução livre), de 2009, é uma reconsideração da Ilíada, e, entre outros, descreve o relacionamento entre Aquiles e Pátroclo como intenso e íntimo.

'The Song of Achilles' ("A Canção de Aquiles", 2011), de Madeline Miller, é uma estória narrada no ponto de vista de Pátroclo, mostrando o desenvolvimento de um relacionamento sexual amoroso entre Aquiles e Pátroclo ao longo dos anos.

O personagem Aquiles Warkiller da DC Comics descreve um Aquiles ressuscitado nos tempos modernos como contraparte masculina da Mulher Maravilha que é gay. Mais tarde, ele inicia um relacionamento com a reencarnação de Pátroclo, Patrick Cleese.

Fonte

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3 comentários:

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