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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Ergi

Valknut nas cores do arco-íris
Ergi (substantivo) ou argr (adjetivo) são dois termos de insulto no antigo idioma nórdico, denotando afeminação ou outro comportamento não-masculino.


Ergi na Era Viking

Acusar outro homem de ser argr era um tipo de censura, e assim uma razão legal para desafiar o acusador num holmgang (um tipo de duelo entre os nórdicos antigos). Se o holmgang fosse recusado pelo acusado, ele poderia ser proscrito (tornar-se um fora-da-lei), assim como essa recusa provaria que o acusador estava certo e o acusado era um argr (afeminado, covarde). Se o acusado lutasse e vencesse no holmgang e assim provasse que ele não era argr, a censura era considerada o que no inglês antigo chamava-se eacan, uma difamação injustificada e severa, e o acusador tinha que pagar uma indenização integral à parte ofendida. As Leis do Ganso Cinzento afirmam:

Há três palavras — se e os intercâmbios entre pessoas chegarem a limites tão terríveis — que levam à proscrição como penalidade; se um homem chama outro de ragr, stroðinn ou sorðinn. Como elas devem ser processadas ​​como outras fullréttisorð (ofensas verbais que devem ser pagas com indenização) e, o que é mais, um homem tem o direito de matar em retaliação por essas três palavras. Ele tem o direito de matar em retaliação por causa delas durante o mesmo período em que ele tem o direito de matar por causa de mulheres, em ambos os casos até a próxima Assembléia Geral. O homem que pronuncia essas palavras cai com a imunidade perdida nas mãos de quem quer que acompanhe o homem sobre quem foram proferidas no lugar do encontro.

Walhalla (1905), de Emil Doepler
(Odin com os einherjar)
A prática de seiðr (feitiçaria) era considerada ergi na Era Viking, e nos registros islandeses e nas leis escandinavas medievais o termo argr tinha conotações de um papel receptivo/passivo de um homem livre durante o intercurso homossexual. Não há registros escritos de como o povo do norte pensava sobre a homossexualidade antes de sua conversão ao cristianismo. O historiador Greenberg pontua:

de início a estigmatização não se estendia à atividade homossexual masculina. Para se vingar do desleal sacerdote Bjorn e da amante Thorunnr na Saga Gudmundar, decidiram colocar Thorunnr na cama com cada bufão (bobo da corte), e fizeram isso a Bjorn, o sacerdote, que não era menos desonroso, desonroso para Bjorn e não para os estupradores dele. Na Edda (coletâneas de mitologia nórdica do séc. XIII encontradas na Islândia), Sinfjotli (meio-irmão do grande herói Siegfried) insulta Gudmundr ao afirmar que todos os einherjar (guerreiros de Odin no Valhalla) lutaram uns contra os outros para ganhar o amor de Gudmundr (que era homem). Certamente ele não pretendia nenhuma indignação à honra dos einherjar. Então Sinfjotli se orgulha de que Gundmundr estava grávido de nove filhotes de lobos e ele, Sinfjotli, era o pai. Se o papel homossexual masculino e ativo fosse estigmatizado, Sinfjotli dificilmente se orgulharia disso.

Pedra rúnica de Saleby

Pedra rúnica de Saleby

Embora nenhuma inscrição rúnica use o termo ergi, a peda rúnica Vg 67 em Saleby, Suécia, inclui uma maldição de que qualquer pessoa que quebre a pedra se tornaria um rata, traduzido como "miserável", "pária" ou "feiticeiro", e argri konu, que é traduzido como "mulher maléfica". Aqui, argri parece estar relacionado à prática de seiðr e representa o termo mais repugnante que o mestre rúnico (a pessoa que esculpiu a pedra) poderia imaginar chamar alguém.


Fonte: Wikipedia (em inglês)


Como puderam ver, apesar da parca menção a homossexualidade nos mitos e na história nórdica, ao menos é sabido que o que eles abominavam não era a homossexualidade em si, mas um homem livre (isto é, que não fosse escravo) se tornar o passivo numa relação sexual com outro homem (por vontade própria ou à força). Isso faz lembrar as leis da Grécia Antiga a respeito da prática da pederastia, onde nas relações homossexuais entre amante (erastes) e amado (erômenos) não era permitido haver penetração durante o ato sexual, porque era inadmissível um homem livre se submeter como passivo perante outro homem, embora outras formas de sexo sem penetração entre homens fosse permitido e até ensinado. E, claro, uma coisa são as regras da sociedade, outra bem diferente é a vida íntima entre quatro paredes, como também era entre os masculiníssimos vikings.

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3 comentários:

Fernando de Almeida Lima disse...

Eu estava bem preocupado com isso quando comesseia a pensar em entrar na tradição nordica, tudo paresce um pouco homofoco e racista! Mas não e nada disso penso! Dentro da tradição pelo contrario! Eu perguntei a deusa Freya havia algum problema em ser afeminado e homossexual e pelo que persebi e que Sr. Freya não ve problema algum.

Fábio Alves disse...

Fernando, do pouquíssimo que sei das tradições pagãs nórdicas modernas, o pessoal é bem cabeça aberta para questões raciais, de gênero e de orientação sexual. Foi algo que descobri há pouco tempo e cheguei a me emocionar quando li uma declaração acho que da Asatru contra o racismo (veja algumas coisas sobre isso aqui: https://asatrueliberdade.com/2016/11/24/sem-lugar-para-racistas-no-valhalla/ e aqui: https://asatrueliberdade.com/2016/04/10/paganismo-nordico-e-o-racismo-brasileiro/

Infelizmente a gente associa muito as tradições nórdicas/germânicas à intolerância graças ao nazismo, mas felizmente estes não representam as verdadeiras tradições pagãs e neopagãs.

Um abraço e volte sempre!

Fábio Alves disse...

Você também pode encontrar alguns artigos no mesmo site que mencionei acima sobre homossexualidade no (neo)paganismo nórdico: https://asatrueliberdade.com/tag/homossexualidade-2/

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